17/04/2008 15:10

Quando o mundo inteiro se torna um escritório

nomad economist

A revista The Economist publicou nesta semana um especial tratando dos prazeres e problemas de trabalhar sem endereço físico. Chama-se Nomads at Last.

O artigo mostra como a internet e os celulares estão mudando nossa maneira de nos relacionar com o trabalho. Muitos de nós já não precisam mais de escritórios. Podem trabalhar de casa, cybercafés ou qualquer lugar onde haja conexão à web.

Isso traz consequências positivas, como flexibilidade de horários, nos livra do trânsito, ajudar a aumentar o tempo com a família etc. Mas, ao mesmo tempo, pode criar a necessidade de estarmos sempre disponíveis e conectados. E isso pode atrapalhar todas as vantagens anteriores. Você é liberado do endereço físico para se acorrentar ao virtual.

O texto da Economist segue outra linha, mas penso que há muitas questões a serem debatidas a respeito do novo trabalho nômade:

Os governos e instituições financeiras não são nada nômades. Tente comprar uma televisão à prazo sem comprovante de endereço. Verifique suas contas de celular e veja o quanto paga de roaming e "taxas anti-nomadismo". Tente pagar seus impostos sem referências a cidades e estados. Nossa relação com o governo e com o mercado ainda está bastante baseada na idéia de que temos endereços fixos.

Trabalho extra: consertar micros. O atual nomadismo depende do uso da tecnologia, certo? Então bem-vindo ao eterno pronto-socorro de máquinas. Quanto mais você trabalha com computadores, mais é assediado por pessoas que precisam de ajuda. Quando menos percebe, já tem gente batendo à sua porta de madrugada para que você conserte algo. Mesmo que não seja um expert em informática, cria toda uma expectativa no seu meio social. Você se torna "o consertador" e tem de trabalhar até em reuniões de família.

Nem todo local tem a mesma infra-estrutura. Você pode estar numa cidade que tem conexões lentas. Isso influencia técnica e psicologicamente no seu trabalho. Há dias que você gasta grande parte do seu expediente esperando computadores trabalharem. Isso pode ser extremamente cansativo e frustrante. Como no século 18, ainda somos gente nos relacionando com máquinas. Agora várias ao mesmo tempo, interligadas e com erros cada vez mais sofisticados.

Vício à informação, má-alimentação, problemas com ergonomia, estresse. Se não estabelecer limites, aquele que trabalha com conhecimento e tecnologia pode facilmente entrar nos grupos de risco dos planos de saúde.

Síndrome do stand by. Você acredita que precisa se atualizar constantemente, pensar em novidades e novas saídas para seu trabalho. Assim, quase nunca desliga. Está sempre em modo stand by. Isso acontece principalmente com jornalistas, blogueiros e merketeiros, que precisam constantemente entreter pessoas e captar o interesse delas.

É cada vez mais difícil entender o conceito de prioridade. Tudo fica cada vez mais urgente. Já que existem tantas ferramentas e facilidades, nossos trabalhos deveriam ser mais rápidos e eficientes. Poucas pessoas conseguem imaginar que cada avanço tecnológico traz uma série de novos problemas com os quais temos de aprender a lidar. Uma simples "tela azul" pode acabar com uma semana toda de trabalho, por mais que você se previna.

O trabalho nômade é um grande avanço. Mas não podemos perder a noção de que, se estamos nos livrando do estilo industrial de trabalhar (fábricas, escritórios), ainda não nos livramos da mentalidade que dava e dá suporte a ele. Ou seja: aquela que nos faz acreditar que nossa descrição pessoal, nossa personalidade, deve estar vinculada ao trabalho. "Sou jornalista. Sou blogueiro. Sou cool (ou um pulha) porque trabalho aqui ou ali".

O apego ao trabalho é uma das nossas maiores fronteiras. E esse não é qualquer Blackberry que consegue libertar.

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Obrigado a Chagdud Khadro pela sugestão do artigo da Economist.

enviada por eduf






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