New age ou vida louca? Nenhuma das duas
Quando sobra um tempo, os moradores do Khadro Ling se reúnem para bater uma bola em frente do templo. Foto: Antonio Soares.
Desde o fim do ano passado, moro num templo budista. Não costumo tocar nesse assunto aqui. Afinal, posso provocar mal-entendidos. Não tenho autoridade para tratar de Budismo. E medi-lo pelas minhas palavras e comportamentos é tão estúpido quanto querer pagar a dívida externa com blocos de Lego.
Mas ontem li um texto no New York Times que me levou a pensar que talvez valha a pena compartilhar certas experiências pessoais. A matéria tratava da vida estressante de alguns autores de blogs sobre tecnologia. Dois morreram recentemente, Om Malik sobreviveu a um enfarto e o editor do Techcrunch indica que está a beira de um.
Também vivo de escrever sobre tecnologia. Mas meu cotidiano não poderia ser mais diferente do deles. Acordo todos os dias com os sons da serra gaúcha. A cidade mais próxima daqui está a alguns quilômetros, via estrada de terra. Sou praticamente um agrogeek.
Não estou interessado em fortunas, nem em ser um blogueiro-celebridade. Minha vida não é nada bucólica, mas também não participo dessa corrida dos 100 gigabites rasos.
Porém, ao contrário do que se pode imaginar, não tenho interesse por religião. Vim para o Khadro Ling também por causa da tecnologia. No caso, uma tecnologia de treinamento da mente, que existe há mais de 3 mil anos e foi ensinada pelo Buda Shakiamuni.
Ela serve para revelar a natureza da mente. De certa forma, como os sistemas operacionais servem para lidar com o hardware. A parte religiosa, o fato de estarmos longe das grandes cidades, tudo isso é como uma interface gráfica (os ícones e janelas que você vê no Windows, Mac OSX, Ubuntu, por exemplo). O budismo tibetano tem uma, o zen outra e assim por diante, para atender às diversas necessidades dos usuários.
É sempre bom lembrar que o mundo não começou na Grécia. A tecnologia não é exclusividade dos ocidentais. As nossas formas de lidar com a mente hoje passam por computadores, pílulas, TVs etc. Os asiáticos tinham e têm as suas. Não é porque surgiu o mp3 player que precisamos queimar os tambores. Pelo contrário, vivemos redescobrindo a sagacidade dos nossos antepassados.
Um dos meus maiores obstáculos ao escrever sobre esse tipo de assunto, é evitar o tom new age. "Ah, ele foi para o mato buscar 'a' felicidade, 'a' paz interior". Cuma?!?
Essas são questões menores. Nem sempre estamos bem, nem sempre estamos mal. É simples, se não superdimensionarmos nenhum dos lados. Mas estamos culturalmente condicionados a complicar tudo e a enxergar só o nosso lado do problema. Gastamos uma quantidade enorme de esforço tentando fazer essa mentalidade funcionar. Mas não funciona. Pelo menos não por muito tempo.
Aqui no Khadro Ling nós treinamos sistematicamente para anular essa perspectiva autocentrada. E isso significa de tocar instrumentos a cortar lenha. Para muitas pessoas, escravas do padrão classe-média urbana, essa conversa pode parecer "pequeno gafanhoto" ou karatê kid demais. Mas, para mim, vale muito mais do que esperar o enfarto para descobrir que há muito mais na vida além do trabalho. E que não estamos presos a um tipo fechado de carreira ou forma de trabalhar.
Como diria a música, "free your mind and your ass will follow".
enviada por eduf
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